O "Pai-Nosso" dos cristãos é um poema , mais do que
um poema.Embora constituído de umas poucas palavras
singelas,cujo número varia de língua para língua ,ele
encerra toda a pregação nazarena,como a minúscula
semente encerra a florescente árvore. Foi o próprio
Mestre quem,segundo o Evangelho,o compôs e
ensinou aos seus discípulos,como o meio adequado
de dirigir-se a Deus,o Pai que está no Céu.
É um poema a que poderíamos chamar de moderno,
pelas suas características.
Não apresenta uma palavra a mais,nem a menos.
Cada expressão tem dois sentidos: o humano e o divino.
Consegue satisfazer à criança e ao velho sábio que
lhe
ausculta o âmago.
Cada um de nós ao repeti-lo vai encontrando o que tem
dentro de si:um escrínio de palavras, uma flor,um retalho
do céu,um luminoso enxame de astros.
Há nele,portanto,alguma coisa de admirável.
Se,por uma calamidade cósmica,o Cristianismo se
apagasse da face da Terra,os homens poderiam
reconstituí-lo pelo "Pai Nosso".
Nesse poema,há mais do que palavras.
Há abismos de luz e torrentes de música.
Os mestres compositores surpreendem as suas harmonias.
O seu texto está no livro e na memória do mundo.
O mar,as cachoeiras e as fontes,nas horas mortas,
repetem-no baixinho.
E o vento nas ramadas.
E as vozes misteriosas do silencio.
Suas palavras são sementes.quando a gente as pronuncia,
elas vão germinando,vão crescendo, vão ficando enormes.
Pendoam-se de frutos.
E enchem com os seus ramos de claridade as
distancias interplanetárias.
O Mestre, quando deu o "Pai-Nosso" aos homens,foi
como se lhes confiasse a chave do Céu.
Colocou-a embaixo,no chão,para que todos
a alcançassem com facilidade.
Os pequeninos,por serem naturais como a água e o fogo,
não têm mais do que estender a mão.
Mas os grandes,porque se julgam altos,precisam
ajoelhar-se para alcança-la.
O "Pai-Nosso" é pequenino.
Umas trinta palavras,na versão portuguesa, mas andou
na boca dos apóstolos,dos profetas, dos mártires,dos
cruzados,dos utopistas,dos filósofos,dos físicos,dos
escravos que morriam na senzala,dos mendingos...
É uma gota de sereno,uma lágrima pequenina, mas na
qual se contém o céu com todas as suas estrelas. |
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